E se fosse possível ensinar o sistema imunológico a reconhecer especificamente o seu melanoma? Essa é a ideia por trás da vacina personalizada de mRNA que a Moderna e a Merck anunciaram em agosto de 2026, após um estudo de fase 3 com mais de mil pacientes.
Abaixo, o Dr. Luís Fernando Tovo, dermatologista especialista em melanoma e coordenador do Núcleo de Oncologia Cutânea do Hospital Sírio-Libanês, responde às principais dúvidas sobre a novidade. Ele também comentou o tema em entrevista à Rede Bandeirantes:
O que é essa nova vacina contra o melanoma?
Estamos falando de uma estratégia muito inovadora, chamada vacina personalizada de neoantígenos. Diferentemente das vacinas tradicionais, que são iguais para muitas pessoas, essa vacina é produzida individualmente para cada paciente. A partir do tumor retirado na cirurgia, são identificadas mutações específicas daquele melanoma e produzida uma vacina de RNA mensageiro, o V940 (intismeran autogene), capaz de estimular o sistema imunológico a reconhecer e atacar células tumorais que apresentem aquelas características.
Isso é uma vacina para prevenir o melanoma?
Não. Essa é uma diferença muito importante. Não estamos falando de uma vacina para evitar que uma pessoa saudável desenvolva melanoma. É uma vacina terapêutica, utilizada depois que o melanoma foi retirado, com o objetivo de reduzir o risco de a doença voltar.
Por que vacinar alguém que aparentemente está sem câncer depois da cirurgia?
Porque mesmo depois de uma cirurgia aparentemente completa, um paciente com melanoma de alto risco pode ter algumas células tumorais microscópicas no organismo, que não conseguimos detectar pelos exames convencionais. Essas células podem permanecer dormentes e, meses ou anos depois, provocar uma recidiva ou uma metástase. A ideia da vacina é ensinar o sistema imunológico a reconhecer especificamente essas células e eliminá-las.
O que mostrou o primeiro estudo, de fase 2b?
O estudo KEYNOTE-942 foi um estudo de fase 2b que comparou pembrolizumabe sozinho com pembrolizumabe (imunobiológico usado no tratamento do melanoma) associado à vacina personalizada V940 (intismeran autogene) em pacientes com melanoma de alto risco que haviam sido completamente operados. O resultado mostrou uma redução importante no risco de recorrência da doença com a combinação.
Esse resultado foi particularmente interessante porque o benefício não pareceu ser apenas uma diferença inicial: o acompanhamento mais prolongado confirmou a manutenção desse benefício.
E qual é a importância do estudo de fase 3?
Esse é talvez o dado mais importante neste momento. O INTerpath-001 foi um estudo internacional de fase 3 desenvolvido para confirmar esses resultados em uma população maior. E o anúncio divulgado pela Merck e pela Moderna mostrou que o estudo atingiu seus dois principais objetivos: reduziu o risco de recorrência (RFS) e também o risco de desenvolvimento de metástases à distância (DMFS).
O que significam esses termos:
- RFS é a sobrevida livre de recorrência, ou seja, quanto tempo o paciente permanece sem que o melanoma volte.
- DMFS é a sobrevida livre de metástase à distância, ou seja, quanto tempo o paciente permanece sem desenvolver uma metástase em outro órgão.
Para o melanoma, isso é extremamente importante porque a principal preocupação depois da cirurgia de um tumor de alto risco é justamente a possibilidade de uma doença microscópica residual posteriormente provocar uma metástase.
Isso significa que já temos uma cura para o melanoma?
Não. Ainda não podemos falar em cura. Os resultados são muito promissores e representam um avanço importante, mas precisamos acompanhar os pacientes por mais tempo e analisar os dados completos da publicação científica. O que podemos dizer é que estamos diante de uma das estratégias mais inovadoras da oncologia de precisão.
O que há de revolucionário nessa tecnologia?
Talvez o mais interessante seja que estamos deixando de pensar no câncer apenas como uma doença que precisa ser atacada de maneira genérica. Estamos começando a utilizar as características moleculares específicas de cada tumor para desenvolver um tratamento individualizado.
É como se o tumor fornecesse sua própria "impressão digital", e a vacina fosse construída a partir dessas informações para ensinar o sistema imunológico a reconhecê-lo.
A mensagem principal
O grande avanço não é simplesmente termos uma nova vacina contra o melanoma. O avanço é termos uma vacina feita especificamente para cada tumor, utilizando as mutações daquele câncer para ensinar o sistema imunológico a reconhecer e eliminar células tumorais que possam ter permanecido no organismo após a cirurgia.
Os resultados do estudo de fase 2b já eram muito promissores. Agora, o resultado positivo do estudo de fase 3 representa um passo muito importante para transformar essa estratégia de medicina personalizada em uma nova possibilidade terapêutica para pacientes com melanoma de alto risco.
Uma observação importante: a empresa anunciou que o estudo de fase 3 atingiu os endpoints de RFS e DMFS. Agora aguardamos a apresentação dos dados completos e a publicação científica para conhecermos a magnitude do benefício, os subgrupos de pacientes e o perfil de segurança em detalhes.
Quando a vacina deve chegar aos pacientes?
A vacina recebeu da agência americana FDA a classificação de Breakthrough Therapy, que acelera a análise de tratamentos promissores. A expectativa divulgada pelas empresas é de possível aprovação em 2027. Ainda não há preço definido nem previsão para o Brasil. O estudo de fase 3 incluiu 1.137 pacientes com melanoma operável de alto risco. O número de "49% de redução de risco" que circula em notícias vem do estudo anterior, de fase 2b, com 157 pacientes, e não do anúncio de 2026.
Perguntas frequentes
A vacina contra o melanoma já está disponível no Brasil?
Não. O tratamento ainda está em fase de estudo e aguarda aprovação regulatória. A expectativa das empresas é de aprovação a partir de 2027.
Quem poderá receber a vacina?
Pelos estudos até agora, pacientes com melanoma de alto risco já operados, em combinação com o imunobiológico pembrolizumabe. Não é indicada para prevenção em pessoas saudáveis.
A vacina substitui a cirurgia?
Não. Ela é produzida a partir do tumor retirado na cirurgia e usada depois dela, para reduzir o risco de recidiva.
Como saber se meu melanoma é de alto risco?
Isso depende da espessura, ulceração e do comprometimento de linfonodos, avaliados no exame anatomopatológico. Converse com um dermatologista especialista em melanoma.
Revisado por Dr. Luís Fernando Tovo, dermatologista, CRM-SP 53673. Atualizado em 16/09/2026.
Fontes
- Merck e Moderna. Comunicado sobre os resultados do estudo de fase 3 INTerpath-001 (agosto de 2026).
- Weber JS et al. Individualised neoantigen therapy mRNA-4157 (V940) plus pembrolizumab versus pembrolizumab monotherapy in resected melanoma (KEYNOTE-942). The Lancet, 2024.
- Entrevista do Dr. Luís Fernando Tovo à Rede Bandeirantes (agosto de 2026).
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